A tendência moderna de separar o todo em partes para melhor análise, por um lado, proporcionou grandes avanços científicos, por outro, dificultou-nos o poder de síntese, a capacidade de entendimento integral.
Soma-se a isto que várias correntes filosóficas e até religiosas desapercebidamente estimularam a que o CORPO deixasse de ser percebido como sendo EU, estando mais visto como uma "máquina", ou "roupa" que usamos !
Na visão holística, inexiste separação de corpo, psique e coletivo, tudo é um só ente, o Universo que somos. Tal qual a água manifesta-se ora como sólido, ora como líquido e até mesmo gasoso, nosso EU apresenta-se sob difentes graus de condensação, desde a mais densa matéria, até o mais sutil pensamento. Assim sendo, aqui não cabe a expressão "mEU corpo", mas sim, "EU-Corpo", pois a matéria não é apenas algo que possuímos, mas sim, aquilo que TAMBÉM somos...
Nesta linha de abordagem, a Terapia Corporal, ainda que o nome induza, vai além do restabelecimento físico (este fica à cargo dos fisioterapeutas...), já que o objetivo final é a ampliação da consciência, sendo o corpo a via de acesso para tal.
Em suas versões modernas, boa parte das vertentes corporais, contentam-se em produzir bem-estar e ampliar a qualidade de vida, tais como o shiatsu, doin, tuina, anma, shantala, reflexoterapia, terapia corporal ayurvédica, dentre outras, que buscam pelo toque, equilibrar os corpos físico e energético (claro, inexiste "separação", é só uma questão de didática, pois tudo é um contínuo...). Até este ponto, nos deparamos com o aumento do bem-estar físico e mental, sem necessariamente aumentar a conscientização da vida "interior".
Outras linhagens ocupam-se igualmente de ampliar a consciência corpórea, resgatando o físico como integrante de nosso EU, tais como yôga, tai-chi-chuan, demais artes marciais e a dança. Aqui, se reconhece a necessidade de harmonizar o "interior", com o "exterior", por meio deste último.
Já as técnicas de objetivos mais ambiciosos, valem-se do corpo como portal de acesso ao psiquismo, tanto consciente, quanto inconsciente, trazendo mais e mais conteúdo emocional e lembranças que antes jaziam reprimidas na musculatura; este é o caso da terapia reichiana e da bioenergética. Ou seja, via corpo, promovem o diálogo entre os aspectos físicos e psíquicos, com a intenção de aflorar os conteúdos inconscientes à tona, comumente as lembranças se apresentando carregadas das emoções relacionadas, gerando catarses reveladoras a serem analisadas no decorrer das sessões.
Muitos dos milenares rituais xamânicos das mais variadas culturas, envolvendo danças, cantos, movimentos, sem dúvida são precursores em induzir via corpo o aflorar do inconsciente. Outrossim, a atenção individual e a ocupação em auxiliar o Cliente a compreender o fenômeno, assimulá-lo e traduzir em benefícios à sua vida, é mérito recentemente resgatado pela Psicanálise e suas variadas correntes.
Dissidindo de Freud em vários aspectos, Wilhelm Reich “corporificou” o inconsciente, identificando suas informações como uma bioenergia circulante (por ele denominada “orgone”). A negação das emoções, impulsos, desejos oriundos do Id se dá pelo impedimento da livre passagem da bioenergia por meio da musculatura corporal, quer seja pela tensão excessiva (mais facilmente identificável...), ou pela ausência desta (falta de tônus), pois em ambas as situações, é prejudicado o livre fluxo energético. Observa-se aqui, um grande paralelismo (jamais assumido...) com as teorias da Terapia Tradicional Chinesa e seus Meridianos (caminhos preferenciais da energia circulante).
Reich extrapolou, concluindo que o inconsciente individual é corporal e que a repressão do material psíquico implica em bloquear energeticamente a circulação da informação, que evolui para tensões musculares, até culminarem em somatizações cada vez mais complexas e, paralelamente, a aparência corporal é igualmente reflexo das experiências psíquicas vividas: quanto mais um componente é mantido inconsciente, maior é o grau de somatização...
Analisando os Clientes, Reich e seus discípulos identificaram regiões corpóreas estatisticamente predominantes, nas quais os traumas psíquicos específicos a cada fase da vida tendem a ser sua energia-informação retida em sua circulação em direção ao inconsciente. Tal mapeamento, também conhecido como Couraças Musculares do Caráter, aproxima-se e muito das zonas tradicionalmente definidas para os Chacras (centros de energia), tanto nas tradições milenares da China, quanto da Índia.
Enquanto na abordagem freudiana, o Cliente segue seu próprio ritmo espontâneo de resgate do inconsciente, por meio de associações livres de idéias durante as consultas, na análise reichiana introduziu-se o TOQUE nas zonas musculaturas específicas (“couraças”), provocando a circulação da bio-energia e, com isso, o contato consciente com as emoções e lembranças reprimidas.
A linha reichiana "clássica", a Vegetoterapia, segue um padrão relativamente rígido e pré-fixado para a sequência de desbloqueio das couraças, enquanto que as chamadas correntes neoreichianas, como a Bioenergética (que tem Alexander Lowen como seu expoente...) são mais flexíveis quanto à ordem e formas de trabalhar os bloqueios.
Estas últimas vertentes, de origens ocidentais e modernas, em contraponto com as demais linhas aqui inicialmentes descritas, milenares e orientais, permaneceram distanciadas, uma corrente desconhecendo totalmente a outra. Não raro deparamos com reichianos que desconhecem chacras e shiatsuterapeutas que nem sequer imaginam que desbloqueiam "couraças do caráter"...
Minha experiência pessoal na Terapia Corporal iniciou com as técnicas manipulativas orientais (shiatsu e tuiná); contudo, mais do que "relaxamento", comumente os Clientes experienciavam catarses emocionais. Ou seja, conhecendo ou não as teorias reichianas, sabendo ou não o que são "couraças", estamos literalmente colocando nossas mãos no inconsciente de quem atendemos e irá aflorar o material psíquico reprimido. Ao estudar e praticar as linhas neoreichianas, senti-me enriquecido em meu potencial de entendimento de meus Clientes, outrossim, mantive as manobras orientais de toque, pois, em meu caso, mostraram-se igualmente eficientes também para o objetivo de ampliação da consciência.
Felizmente, a Terapia Holística, sem preconceito, resgata e abraça todas as variantes, resultando num vasto leque de opções técnicas para melhor nos adaptarmos às necessidades e receptividades de cada Cliente.

Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra cursos na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.
(11) 3171-1913


