Revista Terapia Holística

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O Shiatsu, o Do-In e o Jeitinho Brasileiro...

Terapia Corporal e Capoeira - Arte Digital: Henrique Vieira Filho
As técnicas de terapia corporal são anteriores à própria humanidade. Os animais (nós inclusos...) instintivamente tocam às regiões afetadas, em busca de alívio e solução. Nas mais variadas culturas humanas, desde o advento da escrita, encontram-se registros do poder transformador do toque, seja nas tradições mitológicas, seja em tratados terapêuticos milenares.
O Nei Ching - O Livro do Imperador Amarelo (escrito cerca de 2700 aC, na China) e os Sutras Indianos, que abordam a Terapia Ayurvedica (aproximadamente 1800 aC) são duas das obras mais conhecidas e antigas que incluem a Terapia Corporal. Podemos extrapolar o conceito e incluir as unções das tradições judaicas-cristãs e o poder do toque de deuses, reis e heróis, personagens da rica mitologia grego-romana. Nos períodos dos grandes descobrimentos (traduza-se como invasões européias a outros povos...), os navegadores descreveram em seus relatos, práticas corporais com finalidades terapêuticas nos povos africanos e americanos.

Enquanto no Oriente, as tradições do toque mantiveram-se relativamente intactas, o Ocidente em muito perdeu contato com suas técnicas corporais, somente retomando a pauta nos anos 60, com o movimento da contra-cultura hippie, "revolução aquariana", culminando com a atual e crescente busca por Qualidade de Vida, que transformou o toque numa das propostas terapêuticas mais requisitadas. 

Contudo, nesta trajetória atual de retomada das técnicas, o formato original passou por inúmeras concessões, seja ao adaptar-se aos padrões pudicos de cada período, seja para adequar-se à legislação de cada país. Ora simples mudanças estéticas, tais como adequar nomenclatura, ora abrindo mão de tocar regiões corpóreas polêmicas (para os temporais parâmetros legais e sociais de hoje...), algumas destas passagens raramente constam na literatura. Quase como "segredos" transmitidos oralmente, de difícil ou até impossível comprovação, algumas dessas histórias, vistas sob os olhos do Século 21, chegam a ser tragicômicas e não há motivos para que não sejam compartilhadas.

Com o objetivo singelo de obter o sorriso do leitor e de mostrar que os heróis de nossa profissão também são humanos (felizmente...), o breve relato a seguir tratará de algumas destas passagens, onde constataremos o famoso "jeitinho brasileiro" (desta vez, no bom sentido...) sendo aplicado na Europa, no Japão, no Estados Unidos e, é claro, no Brasil, em prol da boa causa de resgatar a terapia corporal para nossos tempos.

Cabe aqui uma prévia consideração sobre o "jeitinho brasileiro". O "jeito" não é um atributo exclusivo de nosso país, mas sim, comum a toda cultura onde existe um descompasso entre as leis formais e as reais práticas sociais. Existe o sentido negativo, onde as normas são contornadas em benefício INDIVIDUAL (desde uma singela "fila dupla" na porta da escola, até corrupção em alto escalão dos governos...), como também há o lado positivo, onde o "jeitinho" é uma forma criativa de solucionar uma situação difícil ou proibida, ou quanto o interesse COLETIVO vê-se ameaçado por legislação injusta e em descompasso com a realidade estabelecida e bem aceita pela maioria da sociedade (esta última opção é a que considero aplicável aos casos relacionados aos tópicos aqui relatados sobre as práticas de terapia do toque...). 

Um passagem histórica à qual muitos autores associam à aplicação benéfica do "jeitinho brasileiro" deu-se durante o período escravocrata em nosso país. Aprisionados e sujeitos a leis hoje em dia universalmente reconhecidas como injustas, os escravos, de forma criativa, burlavam a vigilância, permanecendo em contínuo treinamento de guerra, ao camuflarem suas técnicas marciais em....dança ! E seus arco e flechas em... instrumentos musicais ! Daí nasceram a capoeira e o berimbau... Impedidos em seus direitos à religião, passaram a associar os Orixás, seja por semelhança na aparência ou de suas histórias, às imagens de entidades e santos católicos, adaptando seu culto aos aceitos pelos escravocratas. A este sincretismo inicial, podemos associar a atual Umbanda. 

Enfim, passemos agora a demonstrar a aplicação benéfica do "jeitinho" como estratégia de sobrevivência contra as perseguições sofridas em nossa profissão.

Comecemos pelo Japão, nos idos de 1920: a ampla difusão da técnica An'Ma (de origem chinesa e também sob significativa influência ayurvédica - indiana) resultou que as autoridades sanitárias estabelecessem uma série de exigências legais para o seu exercício profissional. Tão difíceis de serem cumpridas, mais prático foi simplesmente mudarem o nome de seus trabalhos, agora como sendo Shiatsu, escapando assim do enquadramento da legislação restritiva. Com o passar do tempo, realmente se estabeleceram diferenças entre ambas, a tal ponto que são atualmente vistas como linhas distintas de terapia corporal. 

Estados Unidos e Europa, anos 70: Jacques De Langre e Michio Kushi conquistaram fama e respeito ao ministrarem cursos para não-médicos, onde ensinavam técnicas de toque, sob enfoque da Terapia Tradicional Chinesa e macrobiótica. Como de praxe, seu sucesso despertou a ira de grupos corporativistas, os quais pressionaram com o peso das leis, sob o argumento de que somente médicos poderiam tocar em Clientes com finalidades terapêuticas. Para poderem trabalhar em paz, passaram a divulgar que seus cursos ensinavam cada pessoa a tocar EM SI MESMOS e não nos outros... Daí, surgiu o neologismo DO-IN, termo cuja sonoridade sugere uma origem oriental, mas que, na verdade, é de língua INGLESA, uma curruptela da união do verbo "to do" (fazer) acrescido de "in" (no sentido de "para dentro"), algo traduzível como "fazer em si". Nesta sequência, Kushi publicou "O Livro do Do-In", onde ensina princípios básicos do Shiatsu, enquanto De Langre, lançou "Do-in - Técnica Oriental de Auto-Massagem", onde apresenta uma breve lista de sintomas e seus respectivos pontos harmonizantes, via digitopuntura (aplicação dos dedos em pontos tradicionais de acupuntura...). Já no Brasil, Juracy Cançado, em seu livro "Do-In - Livro Dos Primeiros Socorros", multiplica exponencialmente a quantidade de sintomas e pontos listados por De Langre, passando a ser o "pai adotivo" da técnica e seu principal divulgador. 

Brasil, décadas de 1940 a 1960: grupos corporativistas profundamente participantes do poder político incentivam leis em detrimento de certas profissões, favorecendo direta ou indiretamente à classe médica. Por exemplos: o Decreto Lei 4113, de 1942 proíbe os MASSAGISTAS de fazerem qualquer referência a tratamentos em suas divulgações, além de fazerem constar obrigatoriamente nome completo e onde podem ser encontrados... Já a Lei 3968, de 1961 cria exigências impossíveis de serem cumpridas para a profissão de MASSAGISTA, tais como diplomas e exames junto ao serviço nacional de fiscalização de MEDICINA (claro, jamais ninguém conseguiu sequer ser recebido para registrar certificados ou se submeter a provas...), além de só poder fazer massagem mediante RECEITA MÉDICA (!!), a qual deve ser mantida ad infinitum à disposição das autoridades e que todos os massagistas jamais podem utilizar nenhum tipo de equipamentos e que toda e qualquer divulgação deve ser submetida previamente à análise e aprovação das autoridades sanitárias. 

Destas leis injustas e impraticáveis, resultou em contínuo estado de temor vivenciado pelos profissionais, pois, a qualquer momento poderiam ter suas prisões decretadas e justificadas por esta legislação específica, em atendimento a qualquer pedido de pessoas contrariadas por seu sucesso....

Por sinal, estes exemplos negativos de legislar para favorecer um único grupo, sem considerar o interesse da maioria da sociedade, estão em vigor até hoje e podem ser utilizadas a qualquer instante contra qualquer pessoa que se titule como massagista ou praticante de massagem, ou, mesmo massoterapeuta e massoterapia (recente parecer do Ministério Público do Paraná igualou estes dois termos aos primeiros, quanto à necessidade de cumprimento das citadas leis impossíveis de cumprir...). Como solução prática e de pronta aplicação, o SINTE - Sindicato dos Terapeutas, que é a entidade oficial que representa a profissão em todo o Brasil, orienta a seus filiados a simplesmente abolirem estas duas palavras (e suas derivações...) de seu vocabulário profissional, passando a definir a profissão em si como TERAPIA HOLÍSTICA e as técnicas de toque como Terapia Corporal, ou, ainda com seus nomes de origem, tais como Shiatsu, Tui-Na, An-Ma, Shantala, Terapia Corporal Ayurvédica, Do-In e assim por diante. 

Em suma, estas simples estratégias, derem um "jeito" de contornar injustas perseguições, salvaguardando os interesses da sociedade como um todo, cada vez mais ávida em ampliar sua Qualidade de Vida, pelas mãos (literalmente...) de bons profissionais da nobre Arte do TOQUE.
 

 

Henrique Vieira FilhoHenrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.

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