Considero um desafio imenso, dispor-se a explicar o I Ching de forma didática. Desde o primeiro contato, tive uma afinidade intuitiva com este instrumento de autoanálise e agora me vejo com a obrigação de encontrar palavras e linhas de raciocínio capazes de explicar de forma a que qualquer pessoa que leia os textos, possa compreendê-lo. Temo que ele perca (dentro de mim...) parte de seu encanto, sua "magia", seu mistério. Por outro lado, certamente que ao ensinar, aí sim é que terei a oportunidade de aprender... Todos os estudiosos modernos deste tema consideram a obra de Richard Wilhelm (I Ching - O Livro das Mutações) como a definitiva em linguagem ocidental e, de fato, é. Só recentemente, observando a reação de várias pessoas ao consultar o referido livro, é que me dei conta do quanto ele pode ser hermético, confuso e obscuro para quem não está familiarizado. Ou seja, 99,99% das pessoas ! Disso resulta que muitos desistem do tema, enquanto outros procuram literaturas paralelas que sejam mais palatáveis.
Certamente, todos os autores são bem intencionados e anseiam por compartilhar tudo o conhecimento que o estudo dos hexagramas lhes proporcionam. Outrossim, verdade seja dita, nem sempre conseguimos ser bem sucedidos nesta tarefa que já ocupou boa parte da vida de grandes sábios nestes últimos milênios. A linguagem chinesa escrita, com seus milhares de ideogramas conhecidos, possui cerca de 6 mil anos de idade. Percebam que a grafia do I Ching, com seu código binário, é ainda mais antiga. Ironicamente, esta que certamente é a escrita mais antiga já descoberta, é simplesmente a mesma da mais moderna e atual, ou seja, a linguagem dos computadores !
Por tradição oral, pressupõe-se que a grafia binária era a usual na civilização que antecedeu à chinesa e que perdeu-se com o tempo, e só muito a posterior, foi interpretada e traduzida para o chinês. Uma das versões mais antigas é atribuída ao Rei Wên de Chou (aproximadamente 1150 a.C., cerca de 3200 anos...), comumente chamadas de "julgamentos", pois se propõem a interpretar os fatos expostos em cada hexagrama. Com o decorrer dos tempos, a sociedade mais uma vez se distância do entendimento imediato, necessitando de novas atualizações, que são atribuídas a Confúcio (K'ung Fu-Tzu - 551 a.C. a 479 a.C.) que teceu "comentários" que se propunham a esclarecer os "julgamentos" ( "Comentário sobre a Decisão"), que se somam ao que é conhecido como "Comentário sobre as Imagens", que se refere às imagens associadas aos dois trigramas que compõem cada hexagrama, deduzindo a partir daí, o significado do hexagrama como um todo, em conclusões aplicáveis à vida cotidiana.
Existe, ainda, vários comentários atribuídos ao Duque de Chou e vários outras partes atribuídas também a Confúcio. Daí resulta uma obra que tem origem perdida no tempo e que vem se reescrevendo durante milênios, via somatória de comentários e explicações de vários autores, todos tentando resgatar para as novas gerações, a sabedoria originalmente escrita em código binário.
O melhor modo de aprender o I Ching é utilizando-o e, graças às traduções, todos temos condições de iniciar nesta empreitada e, com a experiência, desvendar a linguagem "obscura" (para nossos padrões atuais...) dos referidos autores seculares.
No decorrer de nossos artigos, a intenção é facilitar o aprendizado prático, incluindo gradativamente as peculiaridades do pensamento chinês antigo.
Comecemos pelas representações gráficas... Para compor um hexa (seis) grama (sinal gravado), as linhas são sobrepostas de baixo para cima. Enquanto em nosso idioma, escrevemos da esquerda para direita, no I Ching, realizamos a leitura de baixo, para cima, ou seja, da "Terra", em direção ao "Céu". Nosso alfabeto possui vinte e seis letras, enquanto o outro, atua com duas: um traço contínuo e outro, interrompido ao meio (yang / yin). As letras se somam, formando palavras e estas expressam idéias, conceitos, a elas associados. Yin e Yang se alternam, se somam e expressam tanto ou mais do que nossas palavras podem compor. Tal qual nossos computadores nos apresentam textos, imagens, sons, vídeos, simplesmente "escrevendo" com duas "letras" (0 / 1), igualmente a combinação de linhas yang / yin bastam para "escrever" todo um conhecimento milenar acumulado. Esta grafia está em conformidade com a filosofia milenar chinesa e similar a muitas outras culturas seculares. A premissa fundamental é a existência do Universo, um "todo" indivisível, que está em contínuo movimento, que podem ser sintetizados em dois básicos: yang / yin, grafados nos seguintes monogramas:
Da continuidade de movimentos possíveis, podemos combinar os dois sinais iniciais entre si, gerando quatro bigramas, cujas mutações/combinações, no decorrer dos séculos, foram classificadas em quatro Movimentos, nominados com fatores da natureza, cujo "comportamento" fosse análogo: Água, Madeira, Metal (Rocha) e Fogo:

Podemos definir que a linha de baixo é a Terra, e a de cima, o Céu... Da interação entre estes dois originais, nasce o indivídio (o "homem", no sentido de "humanidade"...), crescentando mais uma linha na sequência e, desta forma, chegamos aos 8 trigramas, cujo entendimento é uma das chaves que facilitam o entendimento das combinações entre si, ou seja, os 64 hexagramas do I Ching.

Percebam que um quinto movimento foi introduzido no contexto, a partir do momento em que se constata que o próprio observador dos demais movimentos, igualmente é parte deste Universo, sendo tão somente mais uma mutação, que combina todas as demais. Ou seja, eu, você, todo indivíduo, que é definido por esta filosofia como "aquele que está entre o Céu e a Terra" é o observador, que igualmente faz parte do fenômeno observado, e recebe o nome de Movimento Terra.

Tanto os bigramas, quanto os trigramas podem ser classificados dentro do raciocínio lúdico dos Cinco Movimentos Chineses, facilitando o entendimento dos colegas que já estão familiarizados com a Terapia Tradicional Chinesa.
Cada trigrama evoca imagens da natureza, situações sociais, membros de uma família padrão, enfim, são símbolos que traduzem arquétipos e, como tais, de caráter universal, que evocam conteúdos do inconsciente coletivo. Nesta pequena "aula", vamos aprender a reconhecer qual "membro da família" corresponde a cada trigrama, ou seja, quais funções sociais estão associados a eles.
Prestemos atenção no que difere, uns dos outros... Notem que dois deles possuem as 3 linhas iguais, ou seja, um corresponde ao máximo Yang possível (ou seja, os atributos masculinos, o PAI...) e o outro, ao máximo Yin (os atributos femininos, a MÃE).

Vamos agora, identificar as demais figuras familiares... Atentem que a leitura das linhas é de baixo para cima. Isto definido, percebam o que é único, exclusivo, o que diferencia cada um dos demais. Foque agora, individualmente; das 3 linhas, uma sempre difere das demais e justamente essa que dará o nome ao trigrama, de acordo com sua posição.
Um deles, composto por duas linha Yin, se destada por possuir uma linha Yang (a que é diferente das outras duas...), na posição de baixo... Lembrem que a escrita e a leitura é de baixo para cima, o que implica que esta linha Yang (masculina), neste trigrama, originou-se PRIMEIRO que as demais, ou seja, ele é o PRIMOGÊNITO, ou seja, "O FILHO MAIS VELHO".

Já nos outros trigramas igualmente compostos por 2 linhas Yin e uma Yang, notem que esta "sobe" de posição, tornando-se "O FILHO DO MEIO", até a que contém o Yang na posição do topo, ou seja, "O FILHO MAIS NOVO".



Esta mesma linha de raciocínio lúdico aplicamos nos trigramas compostos por duas linhas Yang e uma Yin (esta que é a "diferente" e dará o nome, de acordo com seu posicionamento: Yin na primeira linha, "A FILHA MAIS VELHA", na linha do meio, teremos "A FILHA DO MEIO", na terceira linha (o topo do trigrama...), será "A FILHA MAIS NOVA".



Conhecendo o "membro da família" atribuído a cada trigrama e utilizando a imaginação, facilmente podemos "emprestar" características de cada personagem ao trigrama, desvendando boa parte do seu significado...
O estudo dos Cinco Movimentos somará novos ângulos ao entendimento, pois, ao classificar cada trigrama em um membro do quinteto, de pronto conheceremos muitas facetas de seus atributos, "emprestados" das qualidades específicas de cada um dos movimentos. Sempre é bom lembrar que o I Ching é anterior à escola dos Cinco Movimentos, daí o fato que, só posteriormente, os diversos estudiosos aplicaram este mapeamento aos trigramas.
Uma das aplicações mais conhecidas desta conjunção de mapeamentos é o Feng Shui (técnica de harmonização ambiental...), sendo um de seus recursos mais conhecido, o Baguá, que é uma "bússola" em formato de octaedro, um lado para cada trigrama, que serve (dentre outros usos...) para orientar a disposição dos cômodos e funções destes em um imóvel. Nesta função mais técnica, a "bússola" apresenta os trigramas numa sequência denominada "Céu Posterior" ("Ordem Interna do Mundo", mundo manifesto dos sentidos), em que são apresentados no sentido horário, na sequência temporal das estações do ano:

"Deus se manifesta no signo do Incitar; ele faz com que todas as coisas se completem no signo da Suavidade; ele leva as criaturas a se perceberem umas às outras no signo do Aderir (a luz); ele faz com que elas se ajudem no signo do Receptivo.
Ele infunde-lhes o contentamento no signo da Alegria; ele luta no signo do Criativo, se esforça no signo do Abismal e conduz à plenitude no signo da Quietude".
Nesta mesma sequência, o Baguá deve ser alinhado como uma bússola, direcionando cada trigrama ao respectivo ponto cardeal em cujos atributos correspondam e, a partir daí, por exemplo, encontramos uma base para a disposição ideal de cada cômodo de uma casa.
Existe um tópico polêmico quanto à adaptar, ou não, a disposição dos trigramas aos pontos cardeais, adequando às características de cada país. Por exemplo, os textos do I Ching atribuem características do Ch'ien (luminoso, quente...) ao Sul, e Kun (escuro, frio...) ao Norte... Já no Brasil, tais características estariam invertidas, em especial, devido ao posicionamento de nosso país, em relação à linha do Equador...
Outrossim, uma outra disposição dos trigramas num Baguá é certamente o mais conhecido do grande público, comumente postado na porta de entrada das residências e locais de trabalho. Utilizam a sequência do "Céu Anterior" ("Ordenação Primordial", mundo das idéias e dos pensamentos), uma disposição "idealizada", que não se aplica diretamente ao mundo dos fenômenos em que habitamos, mas sim, num reino "celestial", de "energia", ao invés do universo "material":

"Céu eTerra determinam a direção. Montanha e Lago unem suas forças. Trovão e Vento estimulam-se um ao outro. Água e Fogo não se combatem. Assim, os oito trigramas se interligam."
Para encerrar este capítulo, é interessante mencionar o lado negativo de certos "modismos".
Da mesma forma que algumas pessoas, que certamente desconhecem os fundamentos do Budismo, imaginam que esfregando a barriga de uma estátua deste antigo mestre, atrairão dinheiro, algo semelhante acontece em nossos dias com o Baguá (especialmente o que faz uso da sequência do Céu Anterior): confundem-no com um "amuleto de boa sorte" e que o espelho que tradicionalmente se encontra no centro do octaedro, serve para "devolver", refletir de volta (particularmente, as coisas ruíns...), a quem entra, o que ele desejou ao dono da "bússola".
Na verdade, se estudarmos um pouco a filosofia milenar por trás dos trigramas, deduziremos uma interpretação diferente... No centro da figura, encontra-se o Quinto Movimento (Terra...), que é justamente o que possui características mistas de cada um dos outros quatro, com a incumbência de equilibrá-los; assim sendo, o espelho é para lembrar que VOCÊ é este Movimento, o observador que igualmente faz parte do fenômeno observado.
Lembrem-se, também, que esta ordenação específica dos trigramas é "celestial", nem sequer se aplica diretamente ao mundo material em que vivemos. Desta forma, ao fixar este Baguá em um aposento, equivale a desejar um "Céu na Terra", no sentido muito próximo ao de determinadas orações ocidentais: "Assim na Terra, como no Céu" e "Seja feita a SUA (de Deus, do Universo, dos Céus..) vontade"...

Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.
(11) 3171-1913


