Igualmente discursa sobre sobre a sincronicidade (coincidências emocionalmente significativas) entre os símbolos gerados aleatoriamente (hexagramas) e o inconsciente do Cliente, como forma de propiciar "insights" e catarses durante a interpretação conjunta dos textos e imagens milenares.
Milenarmente utilizado como forma de meditação pelos estudiosos e como oráculo pelos leigos, o I Ching foi apresentando ao século 20 como viável instrumento terapêutico, graças à pública simpatia de Carl Gustav Jung, um dos maiores nomes da Psicanálise, por este instrumento, demonstrada em seu prefácio à obra "I Ching - O Livro Das Mutações", de Richard Wilhelm, principal responsável em introduzir o sistema ao Ocidente.Também na lista de célebres admiradores do I Ching, contamos com Gottfried Wilheim Leibniz, que assumiu a grande similaridade com o sistema binário (a base matemática da linguagem de computação...) por ele desenvolvido, assim como Niels Bohr, um dos pais da física quântica, que reconheceu as semelhanças entre sua ciência das partículas e as mutações descritas neste que é considerado o livro mais antigo do mundo (cerca de 5 mil anos), além do polêmico cientista biomolecular Johnson F. Yan, que demonstrou a curiosa semelhança entre a matemática do DNA e a do I Ching, popularizado em sua obra "DNA e o I Ching: o Tao da Vida" e, claro, o mais reverenciado filósofo chinês, cujo nome latinizado é Confúcio, a quem se atribui vários textos interpretativos aos hexagramas.
O I Ching atua como "espelho" onde refletimos nosso próprio inconsciente e sua eficácia neste sentindo é tamanha, a tal ponto de renomados matemáticos, físicos, biólogos, filósofos e, mais diretamente relacionado à nossa proposta, psicanalistas, enxergarem a si e a seus trabalhos espelhados nos símbolos antigos.
Da mesma forma, o Terapeuta Holístico pode fazer uso deste instrumento, tanto para acessar seu próprio inconsciente e maximizar-se como pessoa e profissional, quanto como método lúdico de contornar a resistência racional dos Clientes em aflorar materiais psíquicos não conscientes, bem como clarificar o entendimento do momento.O Terapeuta Holístico, por meio de variadas técnicas (relaxamento via toque ou induzido verbalmente, musicoterapia, aromaterapia, cromoterapia e similares), deve propiciar ao Cliente um estado de serenidade, condição ideal para melhor aproveitamento da sessão em que incluir o I Ching. O pensamento deve focar em uma pergunta objetiva sobre a situação que desejam aprofundar em terapia. Isto feito, opta por um método de gerar aleatoriamente o hexagrama que servirá de "espelho" arquetípico onde o consulente refletirá a si mesmo.
O hexagrama, como o nome sugere, é composto por seis linhas, cada qual podendo ser classificada como yin (representada graficamente por uma linha interrompida: _ _ ), ou yang (representada por uma linha contínua: ___ ), sendo unidas umas sobre as outras, de baixo para cima. Originalmente realizado por varetas de milefólio, o "sorteio" popularizou-se via uso de três moedas de duas faces distintas, arbitrando-se o valor numérico 2 (dois) para o lado par e 3 (três) para o ímpar. A soma das três moedas sendo par, está pré-definida como sendo uma linha yin ( _ _ ) e, caso ímpar, resulta em linha yang ( __ ), sendo repetido o procedimento até obter as 6 linhas que comporão o hexagrama.
Com o auxílio da literatura sobre o I Ching (recomendamos o excelente "I Ching: o Livro das Mutações", de Richard Wilhelm, impresso pela Editora Pensamento-Cultrix), que incluem uma tabela como a seguinte, identifica-se o número correspondente ao hexagrama obtido e consulta-se os textos relacionados.
Comumente, o nome dos trigramas (hexagramas são compostos por dois trigramas), bem como do hexagrama em si, por si só, induzem a imagens mentais de situações análogas na natureza, provocando respostas emocionais. No livro recomendado existe também descrições e comentários, quanto às linhas, aos trigramas e ao hexagrama em si, tanto de origem milenar, quanto do próprio autor e a e leitura dos mesmos frequentemente causa "insights", onde o consulente percebe coincidências significativas entre o descrito e a resposta que procura.
Por tradição, as linhas que resultem das três moedas com a mesma face (3 "caras", ou 3 "coroas"), ou, no caso de outro sistema de sorteio, o maior número par possível (seis), ou maior número ímpar possível (nove), por si só seriam objeto de atenção especial, existendo textos específicos a serem lidos e interpretados, para cada linha nesta situação, que são chamadas de "linhas móveis".Atualmente, existe muitos softwares capazes de realizar o sorteio do hexagrama, bem como já localizar os textos correspondentes ao mesmo. O próprio SINTE - SINDICATO DOS TERAPEUTAS vem desenvolvendo uma versão online, para uso de seus associados.
O Terapeuta Holístico traz à pauta terapêutica as sincronicidades percebidas pelo Cliente em relação à sessão com o I Ching, tal como faria nas técnicas de interpretação de sonhos e de associações "livres", realizando uma discussão interativa sobre os aspectos levantados, auxiliando o consulente a reconhecer conteúdos psíquicos seus que projetou durante o exercício lúdico de interpretação do hexagrama.O método mostrou-se eficaz como forma de acesso ao inconsciente, contornando as defesas racionais que comumente bloqueiam o aflorar de material psíquico, bem como foi particularmente útil com Clientes que tenham resistência maior perante as alternativas mais usuais de ampliação da consciência, tais como análise de sonhos e associações livres. A interpretação e discussão de hexagramas obtidos possibilita uma sequência de pautas a serem trabalhadas em sessões continuadas, funcionando como fio de meada eficiente para a evolução dos processos de autoconhecimento almejados na terapia.
Boa parte do esforço terapêutico se dá no sentido de acessar o conteúdo psíquico inconsciente do Cliente, trazendo-o à consciência e auxiliar à maior compreensão e assimilação, resultando em autoconhecimento e, por consequência, uma melhoria na Qualidade de Vida.
Quanto mais objetivo e racional for o método adotado para este fim, tanto mais fácil será para que as defesas e a resistência à terapia criem obstáculos ao aflorar de material reprimido. É válido, pois, que se utilize igualmente técnicas de cunho subjetivo, capazes de contornar a resistência do racional e possibilitar que, de forma indireta, se manifestem aspectos psíquicos, projetados em algo externo ao que seja comumente associado com o "eu". O analista atento será capaz de identificar as projeções e colher subsídios para a evolução da terapia. A Psicanálise clássica tira bom proveito da técnica de associação livre, na qual o Cliente, ao entregar-se ao "jogo" de expressar tudo que lhe vier à mente, sem censura e da forma mais espontânea e impensada, frequentemente traz à tona informações reprimidas sobre si mesmo, sem se dar conta de imediato, contornando desta forma, a resistência natural que impede o aflorar destes conteúdos. A interpretação de sonhos segue este mesmo caminho, pois, nosso racional não se dá conta, a princípio, de que ao falar do que aconteceu no universo onírico, estamos, na verdade, contando sobre nós mesmos. O Psicodrama, a Arteterapia, igualmente possibilitam "palco" e "tela" onde o Cliente interpreta e pinta a si mesmo, sem se dar conta imediata do processo, evitando dessa forma que as defesas racionais bloqueiem o eclodir do material psíquico.Dentro desta mesma linha, os métodos que utilizam o conceito junguiano de SINCRONICIDADE, tais como Astrologia, Numerologia, Tarô e, mais particularmente ao caso, o I Ching, funcionam perfeitamente como formas de acessar o inconsciente e de trazer à tona material antes reprimido, no decorrer do exercício de interpretação.
Ainda que de origem milenar e oriental, o I Ching, quanto à forma, está em paralelo com as mais modernas e ocidentais concepções. O conceito de um universo em contínua mutação possui evidentes analogias com a visão do microscosmo das partículas, antes tida como imutáveis, e que agora são concebidas como transmutáveis umas nas outras, na visão da física quântica.
Já a incrível coincidência entre a matemática do DNA e as suas 64 possíveis combinações e igual número e forma de hexagramas do I Ching, novamente colocam o secular sistema em sintonia com os nossos tempos.
Mais próxima ao cotidiano de todos, a computação, onipresente na vida moderna, simplesmente se baseia na mesma matemática que o I Ching: TUDO é sintetizável e expresso sob combinações de tão somente duas variáveis opostas e complementares: "0" (desligado, negativo) e "1" (ligado, positivo), ou seja, yin ( _ _ ) e yang ( __ ) !Veja a palavra ALEGRIA, escrita em linguagem de computação:
01000001011011000110010101100111011100100110100101100001
E a mesma expressão, sintetizada em um hexagrama:
Neste trabalho aqui apresentado, teceu-se várias metáforas relacionando o sistema com "telas" onde o Cliente pinta a si mesmo; neste ponto da tese, convém ampliarmos a analogia, considerando cada hexagrama como uma obra-prima retratada há milhares de anos, cuja interpretação já foi objeto de dedicação de inúmeros especialistas no decorrer dos tempos. A Mona Lisa, de Da Vinci, é coletivamente conhecida por seu sorriso enigmático. Individualmente, pode ocorrer de alguém olhar ao quadro e considerar a mulher retratada como estando, por exemplo, triste. Nesta situação hipotética, há grandes chances da pessoa estar PROJETANDO sua tristeza como se fosse algo externo a si, defensivamente atribuindo sua emoção não compreendida para a tela. Claro que, em terapia, a situação descrita, por si só, teria proporcionado um bom subsídio...
Já no contexto terapêutico em que se emprega o I Ching, o procedimento terá que ser complementado. Quando um profissional, um Terapeuta Holístico, se propõe a incluir esta técnica a disposição de seus Clientes, há de estudar as interpretações clássicas de cada hexagrama, pois, partindo-se do pressuposto da SINCRONICIDADE, ainda que seja fundamental tudo o que o consulente projetar de si sobre os símbolos, também será importante o arquétipo, quanto ao seu consenso interpretativo clássico, cabendo levantar a hipótese de o indivíduo enquadrar-se no contexto e estar resistindo inconscientemente em constatar.
Ainda no campo metafórico, algo como um espelho refletindo uma pessoa magra (dentro de parâmetros de interpretação padronizados pela sociedade..), que vê a si como estando acima do peso, pois, devido a educação recebida, traumas, etc..., desenvolveu uma auto-imagem de inadequação. Caberia ao Terapeuta Holístico constatar a provável disparidade e incluir na pauta das sessões uma forma de auxiliar o Cliente em rever a imagem que fixou sobre si mesmo. Também no espelhamento frente a um hexagrama, o profissional deve observar se há discrepância significativa entre a interpretação pessoal do consulente e a versão clássica e se é caso de propor e proporcionar oportunidade de reavaliação de sua percepção do momento.O I Ching, quanto empregado no âmbito terapêutico, tem claro enfoque de que está sendo acessado o INCONSCIENTE, não apenas o coletivo, mas essencialmente o INDIVIDUAL, cabendo ao Terapeuta Holístico catalizar a interpretação do Cliente quanto aos hexagramas, inclusive, suprindo-o de informações quanto à visão clássica de seus significados, mantendo-se atento a identificar o conteúdo psíquico que se apresentar refletido, para que possa, no momento oportuno, reapresentar à pauta das sessões.
Boa parte da Clientela da Terapia Holística possui curiosidade e aceitação quanto a técnicas que envolvam a Sincronicidade, como é o caso do I Ching, especialmente destacado graças à simpatia pública de grandes pensadores, e, ainda que milenar, mantendo-se em surpreendente atualidade quanto ao linguajar matemático em que se estrutura, similar ao dos computadores, que estão cada vez mais inseridos no dia-a-dia de nossa vida moderna.
A ampliação do autoconhecimento é premissa para toda Terapia, o que exige dos profissionais o conhecimento e aplicação de técnicas que propiciem acesso ao inconsciente de cada Cliente, trazendo à consciência conteúdos psíquicos para serem compreendidos e integrados. Os sistemas ("mecanismos"...) de defesa criam a natural e esperada resistência a este processo de aflorar do psiquismo, cabendo ao analista encontrar formas de contornar e abrandar esta reação contrária, elegendo qual a técnica adotar, para cada indivíduo e a cada momento.
Somando-se à milenar análise dos sonhos, às técnicas vivenciais de catarse, à serena e freudiana associação livre de idéias, dentre inúmeros outros instrumentos, este trabalho apresenta o uso do I Ching como mais um eficaz e lúdico sistema a ser aplicado nos consultórios.
O Psicanalista Carl G. Jung o considerou um guia para o inconsciente. Já esta dissertação, de forma bem-humorada quanto à sua analogia com os modernos sistemas de informática, acrescenta que o I Ching é um verdadeiro "software" do Eu.

Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.
(11) 3171-1913


