Nestas épocas de festas carnavalescas, o que mais se depara nos meios de comunicação visual é o nú. Seja admiração, seja repulsa, fato é que poucos conseguem ficar indiferentes perante a imagem de um corpo desnudo. Em termos universais, a nudez ora representa a vergonha, a sensualidade, ora simboliza o despojamento, a pureza. De qualquer modo, o lidar com o corpo é fundamental para a Terapia Holística e para a ampliação do autoconhecimento.
Em termos de consultório, o profissional deve saber adaptar-se ao nível de pudor (ou despudor...) de cada Cliente, atendendo a todos, com a mesma dedicação e modificando as técnicas, se for o caso.
Observem que a pessoa atendida tem total direito aos seus pudores e deve ser respeitada integralmente em seus limites. Já o Terapeuta Holístico tem a obrigação quase inversa, ou seja, superar seus pudores, seus preconceitos, seus traumas e lidar com aceitação imparcial e integral de seus Clientes, o que implica, é claro, em saber lidar com o corpo (o seu próprio e, por consequência, o de qualquer pessoa que atender).
Existe uma infinidade de técnicas que podem ser aplicadas com o Cliente totalmente vestido, o que garante que sempre teremos condições de bem atender, independente do grau de desinibição de cada indivíduo e de cada momento.
Outrossim, várias abordagens de toque são mais eficazes se houver contato direto com a pele. Qualquer pessoa que já tenha trabalhado em tonificar ou relaxar um agrupamento muscular, ou mesmo em técnicas de abordagens estéticas, como a drenagem, bem sabe que por sobre a roupa é muito mais difícil, até mesmo, inviável.
Existe abordagens que são bastante "invasivas", como é o caso da Terapia Tântrica. Já para a Psicoterapia nas linhas reichianas e bionergéticas, a terapia corporal é justamente o meio de acessar o inconsciente, despertando via toque, as emoções e lembranças reprimidas. E, quando se trata de aflorar emoções, o toque direto na pele e a nudez relativa facilitam e muito a evolução da terapia. Tanto do ponto de vista da "energia", quanto do simbolismo, a roupa atua como uma "armadura", "protegendo" a pessoa do contato direto com a realidade. Como toda forma de defesa, a princípio, é benéfica, porém, em caso de excesso, atrapalha o indivíduo de conectar consigo mesmo. Além da facilitação técnica, o contato direto com a pele, o "desnudar-se" também atua como reforço simbólico para a autoaceitação e quanto a estar receptivo, "desarmado" para bem receber o material psíquico reprimido.
Atendo tanto Clientes de nível extremo de pudor, quanto outros sem dificuldades em expor o corpo e em receber toque.. Claro, essas características por si só indiciam muito sobre o tipo de (pré ?)conceitos adquiridos desde a infância, bem como possíveis traumas sofridos. É fato que os indivíduos abertos ao contato físico aparentam maior velocidade em sua jornada ao autoconhecimento. Também constato que, conforme o grau de autoaceitação evolui, as pessoas ficam mais receptivas aos trabalhos corporais, o que possibilita a inclusão continuada de técnicas que envolvam a arte de tocar.
Seja como for, a nudez relativa, seja "profana" ou "sagrada", é parte integrante dos desafios da transferência e contra-transferência em nossos atendimentos.
Como exemplos, a seguir, dois casos reais...
Em um deles, a nudez e a sensualidade eram utilizadas inconscientemente (algumas vezes, conscientemente...) pela Cliente, como forma de inviabilizar o contato com sua "criança interior". Devido à natural dificuldade em retomar contato com os traumas sofridos neste período de sua vida, sempre que tais questões eram evocadas em terapia, automaticamente a máscara de fêmea adulta se fazia presente e, por meio de sedução, afastava a atenção para longe de seu lado infantil. Em relatos posteriores, a Cliente confidenciou que já inviabilizou a terapia com outros quatro profissionais, que não souberam lidar com a contra-transferência e sucumbiram. Felizmente, por ser treinado em Terapia Corporal, tenho relativa facilidade em lidar com a nudez e pude ouvir o canto da sereia, sem perder-me nas águas. Uma vez conscientizada a defesa, com a colaboração cada vez maior da Cliente, a criança interior fez-se exterior em vários atendimentos, o que aprofundou e muito a jornada em busca de si mesma.
Neste segundo exemplo, a Cliente manifestava total aversão ao contato físico ou à exposição do corpo. Foram meses de conquistas de confiança mútua, até ser possível a introdução de trabalhos corporais. Somente com o toque ocorreu a verbalização de um grande trauma de continuados abusos sexuais durante a infância. O trabalho corporal gerou catarses emocionais, com explosões manifestas de tristezas, que evoluiram para raiva, até disponibilizar energia suficiente para desencadear mudanças em seu modo de vida. A nudez relativa, o ser tocada, na segurança de um contexto terapêutico, catalizou a autoaceitação e abriu caminho para a compreensão e aceitação dos traumas.
Certamente que os resultados que aqui relato poderiam ser atingidos por outros caminhos. Outrossim, tenho a convicção pessoal que sem o benefício do toque, seriam necessários muitos anos até chegarmos a este nível de autoconhecimento e maximização de potenciais.
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Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística. (11) 3171-1913 |



