Revista Terapia Holística

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Sedução E Terapia

Super Marilyn - Modelo: Pamela - Arte Digital: Henrique Vieira FilhoArduamente estudada na Psicanálise, pouco conhecida pelos praticantes de outras técnicas terapêuticas, a correta gerência da possibilidade de sedução/apaixonamento na relação Cliente e Terapeuta é um dos desafios profissionais mais relevantes e intensos.

Freud, em sua obra “Observações Sobre o Amor de Transferência” aborda a encenação do relacionamento emocional no palco analítico. Podemos fazer uma analogia com o teatro, onde, tal qual o consultório do Terapeuta, pode-se  intensificar, livres de estímulos externos, as realizações de desejos e re-edições de antigas frustrações sentimentais de ambas as partes.

Nosso Eu (Ego), ainda que inconscientemente, aplica Sistemas de Defesa (mais comumente traduzidos como “mecanismos” de defesa...) para evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer. Um desses recursos é a Projeção: nesta forma de auto-defesa, desloca-se aspectos de nossa personalidade, sentimentos, emoções, para o meio "exterior", como se não fôssemos nós, mas sim, "outra" pessoa, animal ou objeto quem possuísse essas características.

Quando ocorre no ambiente de consultório, ganha outra nomenclatura: TRANSFERÊNCIA, que é a vivência de fortes sentimentos do Cliente deslocados para o profissional, e, numa direção paralela, temos os sentimentos despertados no profissional pelo Cliente, que Freud denominou CONTRA-TRANSFERÊNCIA. São elementos reprimidos, muitas vezes, infantis, que ganham nova expressão no espaço emocional, criado pelo encontro "Profissional - Cliente", sem que estes tenham plena consciência do fenômeno em questão.

No decorrer de sua obra, Freud deu variada interpretação e relevância ao papel da sedução, tanto nos traumas, quanto no desenvolvimento saudável, desde a infância. A assimetria de papéis é terreno propício para tal, como por exemplos, duas crianças, sendo a mais velha própícia ao papel de sedutor, de encantador e a mais nova, a de seduzida. Igual situação é a de um adulto, perante uma criança, com o primeiro exercendo de forma ativa o poder, e o segundo, passiva.

No laço emocional inicial em nossas vidas ocorre ainda recém-nascido, buscando identificação com as figuras paterna e materna. Tendo na sua origem a identificação com a autoridade parental, tais relações originais tornam-se a matriz de todas as demais, podendo reeditar-se inconscientemente nos relacionamentos subsequentes, inclusive no trascorrer do vínculo terapêutico, em consultórios, que herda e funciona como palco para a projeção de sentimentos intensos e contraditórios, alternando ternura, afeição, respeito, sensualidade e agressividade.

Todo o ser humano possui, em maior ou menor grau, as suas carências afetivas. Por essa razão, a tentativa de resgatar a satisfação adiada, através da reimpressão do protótipo original na relação presente, é um fenômeno que pode ocorrer em qualquer tipo de relação humana. Necessariamente vinculado à configuração da estrutura libidinal, o fenômeno é, assim, responsável pela maneira particular segundo a qual cada um se coloca diante das novas relações, enfim, pela maneira segundo a qual cada um se coloca diante da realidade.

A este processo psiíquico, através do qual o sujeito atualiza o protótipo da relação original na relação presente, Freud deu o nome de transferência, pois trata-se, efetivamente, de transferir para a nova relação os sentimentos e as expectativas depositados numa relação passada.

Trecho extraído de “Emoção e ação pedagógica na infância: contribuições da psicanálise”, de autoria de Maria Aparecida Morgado - Universidade Federal de Mato Grosso

No transcorrer da Terapia Holística, o Cliente transfere inconscientemente para o profissional, os sentimentos provenientes de sua relação primordial, incluindo as libidinais positivas, e até mesmo as catexias (desejos) destrutivas, originariamente impedidas de se manifestarem à consciência.

O vínculo Terapeuta e Cliente se desenrola num contexto bastante similar ao da relação primordial com as figuras paternas. A sociedade confere ao profissional uma autoridade formal para psico-analisar, independentemente de sua competência real, assim como confere previamente aos pais autoridade para educar seus filhos (também independente de terem tal habilidade...).

No imaginário coletivo, pressupõe-se um grau de entendimento maior do Terapeuta em comparação ao que o Cliente possui no momento e, naturalmente, este projeta no profissional o papel de “autoridade”. Encontramos aqui, condições para que o vínculo terapêutico remeta à relação primordial, numa re-edição transferencial dos diversos sentimentos originais. É da qualidade desta nova relação profissional,  que a transferência poderá favorecer ou dificultar a terapia.

A psique do Terapeuta certamente teve um processo de constituição semelhante ao de seus Clientes, ou seja, a relação primordial com as figuras paterna e materna, o que implica que igualmente pode ser influenciado no trato terapêutico, evocando protótipos comportamentais, revolvendo conflitos, enfim, evoca fortes reações inconscientes: é a denominada Contratransferência.

É consenso que a maioria dos Terapeutas possui profundas feridas narcisísticas em aberto, as quais tentamos cicatrizar ao dar atenção aos Clientes, da forma que jamais tivemos... Não raro, tivemos que amadurecer cedo, quando deveríamos ter tido a permissão de ser crianças e nossos cuidados com os outros é a sublimação do ressentimento de que nosso amor não bastava para sermos correspondidos pelos pais, pois só sendo "produtivos" e "perfeitos" para sermos amados.

Freud alertara contra a armadilha do narcisismo do analista, nos processos de Transferência / Contratransferência:

Ele (analista) deve reconhecer que o enamoramento do Cliente é induzido pela situação analítica, e não deve ser atribuído aos encantos de sua própria pessoa; de maneira que não tem nenhum motivo para orgulhar-sede tal “conquista”

O Pai da Psicanáise, enquanto advertia os Terapeutas para que não confundissem essa reação com um amor verdadeiro, ao mesmo tempo, orientava a que não buscassem reprimir o “amor” transferencial:

Instigar o Cliente a suprimir, renunciar ou sublimar seus instintos, no momento em que admitiu sua transferência erótica, seria, não uma maneira analítica de lidar com eles, mas uma maneira insensata. Seria exatamente como se, após invocar um espírito dos infernos, mediante astutos encantamentos, devêssemos mandá-lo de volta para baixo, sem lhe haver feito uma única pergunta.

Ou seja, seria tão desastroso para os Clientes que o seus anseios por amor fossem satisfeitos pelo analista, quanto que fosse suprimido...

Há tanto a projeção "positiva" (amor, carinho...), quanto "negativa" (ódio, raiva...) e faz parte do processo. Cabe ao profissional ter consciência disso e perceber, por exemplo, que um(a) cliente apaixonado(a) por quem lhe atende é tão somente uma transferência e não um sentimento duradouro; o mesmo se dá na fase do cliente "odiar" seu analista, momento em que o Terapeuta Holístico terá que re-experimentar suas dores mais profundas, ligadas à rejeição sentida quando criança.

A melhor forma de preservar a integridade tanto de quem atende, quanto da pessoa atendida, é o profissional manter-se em contínua terapia e supervisão, inclusive, em grupos de discussão, pois o que se constata na prática é que, independente do quão experiente seja um analista, quando está em momento de contratransferência, sua visão do caso fica prejudicada, enquanto que para os demais colegas, que não estão emocionalmente envolvidos na situação, muito mais facilmente detectam o que está ocorrendo.

 

Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.

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(11) 3171-1913

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