Obrigação De Ser Feliz vs Angústia de Fim De Ano

Aconselhamento

Os meios de comunicação em massa imprimem uma “obrigação” de felicidade neste período do ano.

Vendem imagens de pessoas alegres, bonitas, festejando em famílias harmoniosas, todos de bem com a vida.

Quem não se enquadra neste estado de espírito se vê pressionado para “adequar-se”, cobrança esta que pode amplificar ainda mais a angústia que sente.

Estes festejos tem origem milenar relacionados ao final do inverno (frio, neve, escassez...) e o retorno do sol (calor, primavera, fartura de alimentos...). Era uma celebração coletiva pela sobrevivência ao período mais difícil do ano e a esperança que vem com a nova estação. Novos tempos, as necessidades básicas de sobrevivência da maioria estão supridas e os anseios se voltam para questões mais transcendentes, tais como a satisfação afetivo-social, a auto-estima e a auto-realização: Hierarquia das Necessidades - Pirâmide de Maslow - Arte Digital: Henrique Vieira Filho

A idéia de que estamos no “final” de um ciclo, via de regra, conduz a um “balanço de resultados” e, geralmente, a constatação é de que ficamos abaixo de nossas expectativas.

Em uma das variantes da mitologia natalina, a figura de Papai Noel é inseparavelmente relacionado à de seu ajudante, o qual carregava um saco para levar embora as crianças que não se comportaram bem durante o ano.

A versão foi sutilizada com o tempo e a sacola agora traz presentes para os bem comportados, enquanto os outros, nada recebem, ou, quando muito, uma pedra de carvão, alertando que não fez por merecer.

“... Só a permanência oculta, mas ainda efetiva, da face severa e punitiva do velho Noel justifica que a ele sejam entregues em sacrifício os prazeres orais mais regressivos aos quais é preciso renunciar para crescer.

Bicos e 

Angustia de Fim de Ano - Modelo: Pamela - Arte Digital: Henrique Vieira Filho

mamadeiras são sacrificados anualmente no altar natalino em nome do Papai Noel.  

A decoração natalina erige ostensivamente a rubra representação paterna à categoria de imagem incessantemente repetida.

Cada casa tem que ter o seu, pendurado dos mais diversos jeitos, ele sempre tem que estar presente, o onipresente pai que chega com  o fim do ano.

O pai protege, mas ensina a crescer, dá mas exige que se conquiste.

Se muitos pais modernos sonegam ou procrastinam esta tarefa, bem vindo seja o Papai Noel a desempenhá-la antes que o ano acabe e os balanços anuais desabem sobre  nossas sempre parcas realizações.

(Extraído do “Correio da APPOA”, número 64) …” 

Existe introjetado em todo ser humano a “cobrança”, a autocrítica, em grau menor ou maior e, para este último caso, o período de festas amplifica ainda mais a sensação de “frustração”, perante as realizações não conquistadas que, não raro, ofuscam a percepção do que de positivo aconteceu. 

O final do ano atua como “término de prazo” para concluir as metas almejadas e precipita um “julgamento” de que não fez por merecer, somando a sensação de culpa, às emoções de tristeza e até mesmo raiva, que parecem ter menos “espaço” de aceitação nestas épocas em que ser feliz se torna mais uma “obrigação” que não foi possível cumprir, retroalimentando a angústia pelo sentimento de inadequação.

No campo afetivo, cada um elabora suas “perdas” (mortes, separações, enfermidades, acontecimentos traumáticos, etc...), seus “lutos”, de formas distintas, cuja duração não ocorre com “prazo”, nem “data” pré-definidos para encerrar.

Porém, a sociedade “exige” que se festeje esse período, pressionando quem “ouse” estar em outra “sintonia” emocional.

Entes queridos e próximos se esforçam para “impor felicidade”, via de regra, na melhor das intenções, mas impedem a pessoa de vivenciar sua tristeza e, por consequência, de elaborar os acontecimentos e “crescer” com o processo.

Este período de festas também “exige” família perfeita, completa e harmoniosa, compartilhando presentes, refeições, sorrisos e abraços.

Mas, o que fazer com todas as brigas, os traumas, as mágoas, as agressões (emocionais e físicas nos mais variados níveis de gravidade...) ?

Apesar da incontestável beleza do ideal do perdão, a realidade deve ser aceita de que a superação vai muito além da intenção.

Quantos relatos já presenciei, em consultório, do terrível sofrimento de pessoas que se viram obrigadas a permanecer, lado a lado, junto a seus agressores, por serem “família” e estarem “festejando”, tudo em nome do “espírito natalino”.

E ainda “exigiam” sorrisos e abraços a serem sobrepostos ao pavor, ao ódio, à humilhação sentidas...

Em menor grau de traumaticidade, existe outras “cobranças” sutis que afloram nestes momentos em que se exije a “família padrão” propagandeada pelos meios de comunicação: os solteiros, os casais sem filhos, os que ainda não decidiram pela carreira ou optaram por uma não convencional, enfim, todos que não se enquadram no “retrato padrão” tendem ao sentimento de rejeição. 

“... A festa de natal convoca cada um para que assuma seu lugar na família.

A ceia presente ou ausente, mais ou menos lauta ou festiva, termina sendo para todos uma espécie de teste.

Durante o ano podemos variar e ensaiar posição frente à família, mas na festa de natal o peso dos lugares está dado.

Para os namorados em qual família passar é um drama, para os solteiros ainda maior pois lhes é cobrado, ainda que ninguém lhe diga nada, a sua solidão.

Sabemos todos que é ali o dia de mostrar as melhores intenções quanto à continuação da família.

(Extraído do “Correio da APPOA”, número 64) …”

Claro, muitas pessoas realmente se sentem bem neste período do ano.

Outrossim, este artigo é para observar que este “espírito festivo” não é aplicável a todos.

Muitos estão mais para negar sua dor, do que sinceramente alegres.

Pressionados pelas pessoas próximas, bombardeados pelos meios de comunicação que “vendem” a obrigação de ser feliz, seja pelas propagandas de momentos perfeitos, ou pela avalanche de filmes e músicas que remetem ao tema, quantos de nós utilizam de recursos capazes de “diluir” seus reais sentimentos e simular o “espírito festivo”: consumismo exarcebado, festanças, excessos alimentares, drogas (bebidas, cigarros, entorpecentes, alucinógenos, etc, etc...).

Nestes casos, não raro, assim que cessam as emoções artificiais, o re-contato com as verdadeiras costumam ser ainda mais sofridos.

Nós, Terapeutas Holísticos, assim como muitos outros profissionais que também atuam com Psicoterapia, comumente interrompemos as atividades de consultório justamente nestes períodos festivos.

Temos a obrigação de nos dar conta que são momentos extremamente críticos para boa parte de nossos Clientes.

O ideal é que se trabalhe previamente sobre o tema, trazendo à pauta na Terapia a questão das festividades e que se desenvolva recursos capazes de amparar e harmonizar, para um melhor enfrentamento.

Por exemplos, vivências e/ou psicodramas, onde exercícios de imaginação conduzam o Cliente para as festas e situações de família, possibilitando a análise das reações, perspectivas e anseios, como um “treino” do que pode ocorrer, vivenciado no ambiente seguro de consultório.

Outro bom recurso são as essências florais, bem escolhidas e personalizadas (não existe “floral para fim de ano”; cada caso é um caso, cada momento do Cliente, uma composição única e diferenciada de essências..), ou, na impossibilidade de acompanhar o quadro emocional no período, utilizar do Rescue Remedy (sistema Bach), tradicionalmente aplicado em situações emergenciais.

Na verdade, TODAS as técnicas podem ajudar e muito, pois, quanto mais harmonizado o indivíduo, melhores serão suas condições em lidar com as adversidades.

E para todos os que leram este texto, desejo um ótimo período de festas !

Em tempo: SEM nenhuma obrigação de ser feliz !  

Henrique Vieira Filho Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística. contato@sinte.com.br (11) 3171-1913

Destaques da Edição