
Recentemente, o SINTE - Sindicato dos Terapeutas, recebeu vários contatos de colegas, preocupados com a imagem pejorativa, para a nossa profissão, que uma determinada personagem da dramaturgia da Rede Globo poderia gerar.
Na verdade, as novelas mostram o senso comum, lidam com a visão geral e, muitas vezes, os preconceitos. São boas oportunidades justamente para se refletir.
A personagem "Dr. Bodanski" pode ser particularmente educativo para quem atua profissionalmente na área. Ajuda a enxergarmos com os olhos da sociedade, como é interpretada esta "mania" de muitos de nossos colegas de usarem títulos de "dr", bem como de adotarem "nomes artísticos" ao invés dos verdadeiros, além da tendência de optarem por técnicas polêmicas e "inovadoras", quando tem à disposição recursos já consagrados por séculos, até milênios de práticas bem-sucedidas.
O ator Otávio Müller é notadamente voltado à comédia; qualquer pessoa com um mínimo de discernimento sabe distinguir entre realidade e ficção. E, se alguém não tem essa capacidade, não seria um Cliente potencial para consultórios de Terapia Holística... Por que a maioria ri quando a personagem Moe (de Os Três Patetas...) bate com um martelo na cabeça de Larry, sendo que, se vissem tal cena na vida real, de pronto reagiriam com horror ? Porque, certamente, jamais confundiriam uma comédia, com a vida real...
O caso especificamente abordado de forma alguma se trata de uma crítica à nossa profissão, nem é caso de erros técnicos ao abordarem as diversas formas de terapia, pois trata-se de uma PARÓDIA e, como tal, tudo é propositadamente incorreto para gerar o efeito cômico. Qual graça teria se a personagem fosse ética e politicamente correta e sua rotina fosse tecnicamente impecável ?
Retratar profissões nas tramas é um terreno em que os autores caminham com certa cautela. As associações de classe estão prontas a criticar e até processar por situações apresentadas que supostamente denegrim a imagem dos profissionais... Pertinente lembrar que a Constituição Federal não admite qualquer tipo de censura às manifestações artísticas.Toda novela objetiva diversão e entretenimento e tão somente como tal deve ser encarada.
Outrossim, o fato de retratarem nossa profissão, seja de forma positiva, como em "Andando nas Nuvens", onde Lúcia Veríssimo (que por sinal, foi quem iniciou o programa Alternativa: Saúde, antes de Patrícia Travassos...) interpretava uma Terapeuta Holística, seja de forma negativa, tão somente comprova a relevância de nossa profissão na sociedade.
Administração de empresas é uma das profissões tratadas de forma mais deturpadas, passando a imagem que os empreendedores vivem de forma fútil e que nem trabalham, além de comumente os personagens serem de má-índole. Quem não se lembra do Renato Villar (Tarcísio Meira) em "Roda de Fogo", vilão e herói, com suas dores de cabeça? Ou da maledicente e toda-poderosa Odete Roitman (Beatriz Segall) de "Vale Tudo" ?
Bem recente, os fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais se revoltaram com a novela “Viver a Vida”, da Rede Globo, pois esta mostra funções específicas destes profissionais sendo exercidas não por eles, mas sim, por médicos...
Talvez a profissão mais constantemente retratada nas novelas seja a das empregadas domésticas. Podem ser caladas, intrometidas, engraçadas, falastronas e até terem grande destaque nas tramas como a Mônica (Camila Pitanga) de "Belíssima", a Ritinha (Juliana Paes) de "Laços de Família" e a Judite (Walderez de Barros) de "O Rei do Gado".
Já os médicos criticaram a novela "Páginas da Vida" na qual a personagem Gabriel (Miguel Lunardi) é diagnosticado com Aids, de forma antiética e tecnicamente inadequada. Em "Caminho das Índias", Stênio Garcia é um psiquiatra excêntrico e cheio de manias, que pode até deixar de entrar no consultório se o tapete não estiver na porta...
Enquanto isso, a FENASSEC - Federação Nacional das Secretárias e Secretários reclamaram do papel desempenhado pela atriz Angelita Feijó, na novela "Belíssima", alegando que a personagem trabalha como "mera recepcionista da presidência e diretoria da empresa, agindo como fofoqueira, muitas vezes limitada intelectualmente, e de certa forma, como sempre, denegrindo nossa imagem, como se fôssemos meros robôs, atendentes de telefone, somente recebendo ordens, tidas como bonitinhas e nada mais... acredito que imagens como esta apresentada na novela da Rede Globo acabam somente por criar estereótipos errados"... Isso para não falar na solteiríssima Wal, de "Caminho das Índias", que, em pleno expediente de trabalho, cuidava do seu perfil falso nas comunidades de internet em busca de pretendentes...
Os exemplos acima comprovam que o descontentamento de grupos classistas com o modo como são retratadas certas profissões nas novelas é generalizado e não é exclusividade nossa. Se ampliarmos o leque para outras formas de programas televisivos, pertinente destacarmos a inglória batalha do Conselho de Enfermagem contra a personagem "Enfermeira do Funk", sensualmente interpretada por uma dançarina.
Alguma entidade da medicina reclamou por Jô Soares interpretar um médico que tem pavor de doenças e por isso, se afasta de seus Clientes ? Ou algum grupo de odontólogos se revoltou por este mesmo comediante parodiar com sua personagem dentista que tem tara sexual por bocas ? Ou alguma sociedade de profissionais da comunicação se revoltou com a "Bô Francineide", autoproclamada "comunicóloga da PUC", sempre às voltas com cacófatos de cunho erótico e seu álbum de poses sensuais ? E atente que citamos aqui tão somente UM dos incontáveis artistas cômicos dos meios televisivos...
É justa a preocupação de muitos colegas quanto à hipótese de que tal exposição possa trazer prejuízos materiais e morais à categoria. Outrossim, sendo o SINTE - Sindicato dos Terapeutas, com 18 anos de experiência, o órgão máximo e OFICIAL a representar a profissão em todo o o Brasil, podemos afirmar, por analogia aos casos anteriores, que o efeito é amplamente positivo.
Certa ocasião, o programa humorístico "Casseta & Planeta" apresentou o quadro em que atriz Maria Paula interpreta uma sensual e atrapalhada Cromoterapeuta, tão somente para apresentar um "trocadilho" em que a personagem do humorista Helio de La Peña conclui que o melhor é que ..."No final, eu cromo a terapeuta"... Resultado prático: um aumento significativo da procura por Cromoterapia em nossos sites, bem como na requisição desta técnica em nossos serviços de indicadores profissionais...
Ainda que possa até ser considerada fraca e de mau gosto, era tão somente uma PIADA e sob este enfoque é que devemos quantificar o grau de importância da ocorrência.,
Até mesmo quando a intenção é propositadamente denegrir a categoria, sendo a Revista Veja a campeã neste quesito, o resultado final é um grande aumento da procura por Terapeutas Holísticos.
Nossa experiência de 18 anos na defesa da profissão, nos comprou estatisticamente que cada reportagem deste tipo que saía, resultava em aumento de curiosidade sobre nosso setor, atraindo novos clientes, enquanto que aqueles que já se tratam com a Terapia Holística ficam ainda mais "fãs" e, indignados com o ocorrido, acabam defendendo nossos métodos perante todos que comentarem o publicado.
Ou seja, o resultado final é: MAIS CLIENTES ! Sob este ângulo, talvez devêssemos, ironicamente, AGRADECER à Veja, pois este tipo de "artigo" vindo de uma revista que já há anos é incapaz de falar bem do que quer que seja, se torna um elogio...
É sábio que aprendamos com as críticas, mesmo as injustas e é sadio que consigamos rir e entender até mesmo como homenagem, as paródias de que nossa profissão é objeto. Na verdade, algumas obras artísticas neste sentido deveriam ser "obrigatoriamente" assistidas por todos nós.
Há opções para todos os gostos... Desde singelos seriados de televisão, até campeões de público e crítica...
Por exemplo, a série "Eli Stone", cujo protagonista é um advogado com aneurisma incurável que conta com o auxílio do "Dr. Chen", personagem cômico que, apesar de usar pseudônimo em consultório, fazendo-se passar por "médico chinês", na verdade, é um bem intencionado Terapeuta Holístico, que com a Acupuntura e associações de idéias, ajuda Eli a transformar suas alucinações em verdadeiras mensagens do inconsciente, as quais, uma vez compreendidas, resultam em ações altamente positivas.
Já no cinema "cult", é citação obrigatória o filme "Simplesmente Alice" (Alice, 1990), de Woody Allen, no qual a personagem interpretada por Mia Farrow, consulta um terapeuta "chinês" (num esteriotipado consultório sujo, escuro e em bairro étnico...) sobre suas dores nas costas, às quais ele atribui ao emocional, tratando-a com ervas e hipnose, causando efeitos de desinibição e invisibilidade, resultando em uma reviravolta total na vida da antes acomodada Alice...
Imperdível a interpretação do premiadíssimo ator Anthony Hopkins, onde satiriza a história real do famoso Terapeuta "naturista" que dá nome ao título do filme "O Fantástico Mundo do Dr. Kellogs", que se passa em um "spa" de rica clientela submetida a alimentações "saudáveis" a base de flocos de cereais, além de terapias com máquinas de choque, banhos de temperaturas contrastantes, saunas e a mais puritana abstinência sexual. Ainda que em curta passagem no filme, há também o contraponto com a visita de um rival que preconiza o "paroxismo histérico" (ver a divertida e polêmica matéria na Revista TH , nominada Freud, Nossas Bisavós E Os Vibradores ...). Este filme deveria ser obrigatório nas escolas de nossa profissão, para melhor entendermos como o público em geral pode interpretar certas posturas rígidas e excêntricas, infelizmente ainda comuns a muitos de nossos colegas de profissão...
Em suma, desejamos que o ilustrado neste texto tranquilize nosso colegas preocupados, de modo a que possam usufruir com bom humor das novelas, dos seriados, dos filmes e até rir das incorreções das personagens que retratam a nossa vida em consultório.
Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, dentre estes, a obra MARKETING Para Consultórios de Terapia Holística: Estratégias Essenciais para Conquistar, Manter e Encantar sua Clientela.


